Prêmio José Albano Volkmer e Posse da nova diretoria

Data: 09/12/2019
Fonte: Texto: Annie Castro/Sul21. Fotos: Giulia Cassol/Sul21

Durante a tarde do último sábado (8), a sessão gaúcha do Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-RS) realizou a entrega do Prêmio José Albano Volkmer, voltado a arquitetos gaúchos recém-formados que receberam em suas faculdades a Menção Honrosa pelo melhor trabalho de conclusão de curso em 2018, e a posse da nova diretoria da entidade para o triênio 2020/2022.
 

A grande vencedora desta edição do prêmio foi a arquiteta Fernanda Manfro Lima, da PUC/RS

Dentre os 54 projetos participantes da etapa estadual do Prêmio, o vencedor desta edição foi o trabalho ‘Renascer antigo Hotel Carraro: revitalização de imóveis antigos com potencial para o mercado imobiliário em Porto Alegre’, da arquiteta Fernanda Manfro Lima, orientado pelo professor Paulo Cesa Filho, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), que buscou demonstrar que é viável financeiramente utilizar comercialmente uma edificação já existente e, ao mesmo tempo, manter o valor histórico e cultural desse prédio.

Além do vencedor, a cerimônia, que ocorreu na sede do IAB-RS, também premiou o projeto destaque, concedido ao trabalho ‘Escola autônoma Mbyá-guarani do Município de Maquiné’, do arquiteto Francisco Lange, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Os prêmios de 2º e 3º destaques foram concedidos, respectivamente, aos trabalhos ‘Sesc Inconfidência de Canoas’, do arquiteto Yuri Carneiro, da Unisinos; e ‘Fissura urbana, habitações sociais mínimas e lote residuais na área central de Porto Alegre’, da arquiteta Ingrid Chaves Santana, da UniRitter.
 
Destaque para arquiteta e urbanista Ingrid Chaves Santana, da UniRitter.
 
Destaque: Arquiteto Yuri Carneiro, da Unisinos

 
 
Destaque: Francisco Lange, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)


Após as cerimônias de premiação e de posse da nova diretoria, também ocorreu a inauguração de uma exposição pública com os mais de 50 projetos inscritos no prêmio, cujo nome homenageia José Albano Volkmer, três vezes presidente do IAB-RS e docente de diversas faculdades de arquitetura e urbanismo, e, na sequência, o show da banda Tribo Trio.

Projeto vencedor
O trabalho vencedor buscou incorporar traços contemporâneos ao antigo Hotel Carraro, localizado na esquina da Av. Otávio Rocha com a Rua Doutor Flores, no Centro Histórico da Capital, e que atualmente abriga a loja de departamento Riachuelo. No projeto, Fernanda resgatou detalhes arquitetônicos da edificação e usos originais do edifício e adicionou novas possibilidades ao espaço, como salas comerciais e apartamentos para aluguel por sites e aplicativos, por exemplo. Ainda, a arquiteta buscou recuperar a relação histórica do edifício com a Praça Otávio Rocha.




“Toda a relação de conceito do meu trabalho foi nesse sentido de demonstrar o peso do papel cultural sobre ele e, a partir disso, fazer um resgate dessa história entre o edifício e a Praça. Ele é um imóvel muito importante para aquela região, quando alguém pensa na Praça Otávio Rocha, logo vê que ele faz todo o plano de fundo da praça, como uma paisagem, mas ele foi totalmente descaracterizado ao longo dos anos e, inclusive, está totalmente cego, porque não tem mais janelas”, explica Fernanda.

Com isso, o projeto incorpora ao térreo do edifício elementos para “levar a Praça para dentro do edifício” e a presença de galerias e lojas comerciais. No segundo andar, o trabalho prevê um espaço de coworking e café. Nos andares superiores, a arquiteta propõe recuperar a história e estrutura do edifício que já foi um hotel, com apartamentos para aluguel no sistema Airbnb e, do quarto andar em diante, sugere uma área residencial. “É como se fosse um empreendimento imobiliário, mas em uma pré-existência histórica”, afirma Fernanda.

Segundo a arquiteta, a escolha por englobar um olhar mais contemporâneo surgiu no momento em que ela, juntamente com seu orientador, decidiu tornar o projeto um empreendimento imobiliário. “Se a gente não consegue muitas vezes fazer uma abordagem pela cultura e pelo valor da edificação, então podemos conseguir demonstrar que também é viável financeiramente manter um edifício assim, porque utilizamos toda estrutura de paredes, vigas e lajes para pensar o edifício, então, tu já parte de uma área construída muito maior do que se fosse construir em cima de um novo plano”.
 
Rafael Passos foi empossado para uma nova gestão à frente do IAB RS. Foto: Giulia Cassol/Sul21

Para o presidente do IAB-RS, Rafael Passos, o trabalho vencedor é importante para que seja possível compreender que existe uma cidade pronta e com identidade em Porto Alegre que possui grande potencial financeiro. “Quase todas as grandes cidades brasileiras têm um número de imóveis vazios quase tão grande, às vezes maior, que o número do déficit habitacional brasileiro. No momento em que os recursos são cada vez mais escassos, precisamos ter um novo olhar que não é tão voltado para o crescimento desordenado da cidade e para promover novas edificações, como se isso fosse uma solução de desenvolvimento econômico, mas sim de valorização do seu patrimônio construído e de recuperação desse patrimônio construído”.

Passos também ressalta que todo edifício construído, seja ele tombado ou não, possui um capital acumulado ali, que precisa ser revertido para a população. Segundo o presidente, quando as edificações estão vazias ou ociosas, elas possuem um capital que está gerando um passivo dentro da cidade para a administração pública e também para o setor privado.

Fernanda acredita que a premiação não foi apenas para seu trabalho, mas também “para um novo olhar mais gentil, sensível e contemporâneo para o patrimônio”. “Fico feliz pelo patrimônio, porque estamos vivendo tempos em que muitas vezes não se vê tanto valor na história e nos edifícios históricos”, afirmou.

“A ideia do meu projeto é que o mercado imobiliário possa também olhar para essas edificações que já existem, que possuem boa arquitetura, e revitalizá-las, porque olhar para o passado também é olhar para o futuro e zelar pela arquitetura do passado. E nós, como arquitetos, temos que construir a boa arquitetura do amanhã, mas também temos que advogar pela arquitetura do passado e pelos arquitetos que estiveram aqui e fizeram a sua parte muito bem feita e não estão mais aqui para cuidar disso”, complementou a arquiteta.

Nova diretoria
Durante a cerimônia de posse da nova diretoria do IAB-RS, foram pontuadas as mudanças na entidade buscando promover cada vez mais a inclusão de mulheres na diretoria e em conselhos do instituto. Na nova gestão, 12 dos 24 novos membros do conselho diretor e superior são arquitetas e urbanistas mulheres e cinco núcleos do IAB no interior do Estado terão mulheres na presidência.

Confira os integrantes do Conselho Diretor:
Presidente - Rafael Pavan dos Passos
1ª Vice-Presidente - Paula Silva Motta dos Santos
2ª Vice-Presidente - Camila Bellaver Alberti
3º Vice-Presidente - Natan Franciel Arend
Diretora Administrativa - Rochele Pizzolotto Lyrio
Diretora Administrativa Adjunta - Tamáris Luise Braun Pivatto
Diretor Financeiro - Marcelo Arioli Heck
Diretor Financeiro Adjunto - Rodrigo Poltosi Gomes de Jesus
Diretor Cultural - Fabio de Medeiros Albano
Diretor Cultural Adjunto - Alexandre Rosa Bento
Diretora de Comunicação - Bruna Bergamaschi Tavares
Diretora de Comunicação Adjunta - Nathalia Pereira Danezi

Segundo Passos, que foi empossado para mais uma gestão à frente do IAB-RS, a entidade buscou colocar na nova diretoria pessoas que tenham preocupações com questões de gênero, mas também com questões que envolvem comportamento e problemas sociais. “Hoje, as mulheres são 60% dos profissionais de arquitetura e, no Rio Grande do Sul, só tivemos três presidentas até hoje. Eu gostaria inclusive que minha colega tivesse aceitado ser presidenta agora, mas como não deu, irei continuar na presidência, mas estamos colocando na diretoria um pessoal mais jovem, que tem essas preocupações”, disse.

Passos também afirmou que o IAB-RS, embora seja uma entidade de classe, também é uma entidade política e cultural e, portanto, sempre se preocupou em tratar também de questões mais amplas que permeiam a sociedade. “Nosso papel dentro da atual conjuntura de ataque a direitos fundamentais é demonstrar e denunciar o quanto isso tem a ver com a questão não necessariamente da arquitetura e urbanismo, mas também com questões de território, de disputa, do lugar de vida das pessoas e de tudo que demanda isso.”