Um Instituto de Arquitetos para o Brasil

Data: 28/09/2020
Por: Diretoria Instituto de Arquitetos do Brasil - IAB



Discurso de posse da Direção Nacional do IAB 2020/2023





Colegas, representantes de nossas instituições nacionais e internacionais, boa noite.

Antes de mais nada, nosso reconhecimento ao precioso trabalho da última Direção Nacional, liderada pelo Departamento da Bahia, orientando com altivez os rumos de nossa entidade em tempos tão difíceis para a Nação, para a sociedade e, por isso mesmo, para a nossa profissão. Se podemos hoje almejar avanços, é porque partimos do legado de todos os que nos antecederam. A vocês, nossa imensa gratidão.

A arquitetura e as cidades não só nos dizem quem somos, mas o que podemos e o que queremos ser. Respondem às tragédias e às possibilidades de seu tempo. No entanto, os tempos são muitos, tão diferentes para cada um, enraizados na história e no território. Coube a nós viver mais uma vez tempos sombrios. De tristeza, desesperança, fumaça, descaso, terra arrasada.

Terra, esse amálgama que nos une, mas também divide. No campo, na floresta, na cidade, nos problemas e nos desafios que vivemos, ela, a terra, é elemento central. A desigualdade histórica no acesso à terra reflete os grandes temas atuais - identitários, ambientais, alimentares, econômicos - e não haverá solução alheia ao acesso à terra como direito, bem comum e necessidade vital.

Não há mais Terra para vivermos do mesmo modo, e já não há mais tempo.

Há 4 anos um golpe usurpou a presidência da primeira mulher eleita no Brasil, e ainda hoje os mandantes do assassinato de Marielle Franco continuam impunes. No Brasil, são 140 mil mortos pela pandemia;  muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas. As chamas na Amazônia, no cerrado, no pantanal, exterminam nosso patrimônio natural, causam impactos ambientais, climáticos, sociais e econômicos, de proporções incalculáveis e de extensão continental. 

As comunidades tradicionais - responsáveis por milênios pela preservação desses biomas  - são vítimas de um processo colonial de usurpação de suas terras e modos de vida. O mundo observa incrédulo a inépcia e a cumplicidade das autoridades nacionais.

O desmonte da indústria nacional, da ciência, da cultura, dos direitos sociais e econômicos, a  exploração do trabalho, bem como a expansão da agropecuária de exportação e do extrativismo, completam o quadro de um projeto de dependência que nos afasta a cada dia de qualquer aspiração emancipatória. O desmonte do Estado mostra sua face cruel e cínica na crise em que estamos.

Universidades sob intervenção, censura a meios de comunicação, artistas e fazedores de cultura, e ainda a profusão de notícias e denúncias de torturas e assassinatos de lideranças indígenas, negras e populares são sintomas diários do avanço do autoritarismo e da violência institucional no Brasil.

Mas o mundo é mutável, transformável, e esse é o tempo que nos coube. Saber quem somos parte de nossa memória, que estrutura e compõe nossa identidade. E a memória depende, todo o tempo, de fios que fazem uma história, uma pequena história de cada um, ou a história maiúscula de cada povo. Os lugares e os objetos guardam essa capacidade evocadora da memória, e é por isso que precisamos deles para manter viva a nossa identidade.  Os relatos que nos transmitem a história estão ancorados no território. A cultura é arraigada no território, lugar onde os direitos abstratos se concretizam, mas, mais que isso, lugar onde a consciência, a reivindicação e a luta por esses direitos toma forma. E isso não é pouca coisa.

É nesse contexto que nós, arquitetas e arquitetos, somos desafiados a projetar e a construir, a consolidar o papel e a dimensão cultural, civilizatória e libertária da Arquitetura.

A miséria, a morte e a destruição não podem ser banalizadas. Os corações dos jovens não podem sucumbir na desesperança. Temos a obrigação de debater, propor, denunciar;  enfim, essa ação que nos acompanha a vida toda: lutar.

É nesse tempo, de olhos abertos e mãos estendidas, que o IAB existe e resiste.

Por sorte, não estamos sós e não começamos hoje. Começamos há cem anos, e isso, por si só, merece celebração. O relato preciso que o presidente Nivaldo fez de nossa história converge para o caminho a seguir: a defesa intransigente da democracia, da cultura, da liberdade e da equidade.

As soluções capazes de enfrentar os desafios de um mundo marcado por imensas desigualdades, mesmo aquelas promovidas pela arquitetura e pelo urbanismo, não serão construídas no âmbito estrito da nossa profissão. Exigem o engajamento do IAB nas grandes questões da vida nacional, de natureza política, social, econômica e cultural, e que se dará pela atuação em conjunto com os movimentos e instituições representativos dos mais diversos setores de nossa sociedade.

Urge construirmos caminhos para promover o acesso à arquitetura e ao urbanismo por todos os setores de nossa sociedade, sobretudo pelos mais pobres. Tal esforço vai ao encontro também das aspirações das novas gerações de arquitetos e arquitetas, para as quais o acesso e a permanência na atuação profissional é em si um enorme desafio.

Num momento em que as políticas habitacionais e urbanas se orientam ainda mais pelos meios mercantis e financistas, é dever de nossas entidades nos unir àqueles que lutam pela habitação e pela cidade como direito, a fim de construir formas inovadoras de promoção dessa arquitetura, fundamental para o desenvolvimento social.

Devemos consolidar o Fórum nacional e os fóruns estaduais de entidades em defesa do patrimônio cultural e o Observatório do Patrimônio como frentes de resistência à destruição da memória, dos modos de vida e da alma do povo brasileiro.

O Congresso UIA2021, em tempos dificílimos, precisará consolidar formatos, temas e falas inovadoras no debate da arquitetura e do urbanismo que respondam às questões mundiais de proteção ambiental, redução da pobreza, justiça social, preservação das culturas e dos meios de vida dos povos originários, equidade de gênero e etnia e defesa dos direitos das populações minorizadas..

A participação na FPAA construirá a interlocução com os países do continente, ampliando o conhecimento dos trabalhos, dos desafios e das propostas, por meio dos colóquios, dos congressos,  das bienais, dos concursos e das premiações.

A participação no CIALP, buscando os pontos comuns legados pela colonização portuguesa, nos auxiliará a compreender e a superar diferenças regionais e culturais,  celebrando pelo idioma a arquitetura e as cidades.
É necessário que busquemos o diálogo com os países que enfrentam problemas semelhantes aos nossos, na busca de saídas reais e corajosas.

A aproximação às entidades que defendem a democracia e as liberdades democráticas, publicando posições firmes e assertivas, revelam-se o caminho possível para elevar nossa voz contra as arbitrariedades e os desmandos que enfrentamos e enfrentaremos cada vez mais.

A defesa da educação pública e gratuita, em especial as universidades e os institutos federais,  deve orientar nossas ações no campo da educação em arquitetura e urbanismo, buscando sempre uma formação de alta qualidade, o incentivo à pesquisa e à extensão e o compromisso com o papel social de nossa profissão.

Os Congressos Brasileiros de Arquitetos são o momento maior do IAB para a articulação, intercâmbio de ideias, diálogo com diversos setores e destaque às questões candentes da produção do espaço. Devem refletir as demandas e aspirações das novas gerações de arquitetos e arquitetas, de modo a conduzir a profissão e o IAB ante os desafios atuais e futuros.

As Bienais Internacionais trazem para o cenário nacional leituras inovadoras da produção da arquitetura e do urbanismo, e complementam nossa compreensão da realidade profissional.

Nossa imensa capacidade de trabalho e reflexão em nossas instâncias internas - Departamentos, Núcleos, Comissões - deve ganhar expressão junto à sociedade, ao poder público e, também, ao mercado. A ação coordenada entre elas, articulada a uma estratégia de comunicação externa, são passos necessários para dar visibilidade e efetividade a esse potencial.

Constituir uma entidade centenária como referência entre os arquitetos e arquitetas, outros profissionais afins à área, e à sociedade é o desafio que devemos assumir em conjunto, entre todos e todas que fazem o IAB nos diferentes níveis da federação.

Por fim, alegra-me ser uma mulher a presidir o Instituto de Arquitetos do Brasil. Espero que, ao lado dessa conquista de todas nós, representemos a desconstrução das manifestações patriarcais em todos os seus aspectos no âmbito da profissão, da sociedade e das instituições.

Só a construção de um novo olhar, um olhar nosso para nós mesmos,, um olhar lúcido que se oponha ao culto da fatalidade, que enfrente a exploração e a especulação; um olhar que mire o horizonte e nos faça caminhar passo a passo, um olhar que não se desespera, mas age, pode nos conduzir na construção de um país justo, solidário, generoso e amoroso.

Agradeço profundamente os anos em que pude conviver e aprender com todos vocês, e agradeço aos que, com suas ideias e críticas contribuíram para nossas ideias em especial o Departamento de Bahia na pessoa de seu presidente Luiz Antônio e do colega Daniel Colina.

Agradeço, mais uma vez, ao Presidente Nivaldo e a toda a Direção Nacional, pelo excelente trabalho que nos trouxe até aqui, e chamo meus companheiros de chapa, agora companheiros de gestão, para que apresentem suas contribuições.